Porque sentimos cíumes?

Ao meditar alguns instantes sobre a causa do sentimento talvez mais remoto e ilógico que um ser vivo possa vir a ter, começo a olhar os dons que a natureza cultivaram nos nossos hábitos e essência, pois, se não ela, quem mais poderia deleitar-se de proveito nos sentimentos que o ciúme traz consigo?
Vejo, numa visão cientificista e lógica, a sustentação e domínio como explicações de tal estado, uma vez que a liderança e a bravura são opostos da fraqueza e da morbidade. Somente os fracos podem vir a sofrer com a desilusão que é a sua substituição por um outro qualquer que consiga suprir demandas que ele não conseguira, e é então o extinto animal que guia nossa alma a sempre manter dúvidas e incerteza quanto a fidelidade dos que nos cercam, mesmo que em nada os fatos reais colaborem para tais pensamentos.
Seria então a causa natural das coisas a única explicação? Suponho que não, pois se então assim o fosse, de que atributos nossa alma estaria encarregada senão o de conciliar o corpo com nosso quos? Pois se o homem sente o tanto quanto a terra e o fogo podem lhe machucar, assim também deverá estar apto a perceber como as faculdades espirituais intangíveis em muito impulsionem sentimentos como o ciume.
Ficara, portanto, como uma marginalidade restrita do nosso frágil elo entre o divino e o terreno, sendo sua contribuição efetuada em raras exceções, quando por mero acaso o ato de sentir ciúmes aproxima e cultiva laços entre os dois, uma vez que este seja um ciúme saudável. Logo, é importante salientar as três formas que o ciúme pode vir a se apresentar: puro, corrosivo, pecaminoso.
O ciúme puro é, ao meu ver, como uma bela flor que cresce nos jardins de Apolo. Se cultivada na medida certa com as pequenas porções de água nos momentos certos do dia, pode fazer com que as cores exuberantes e o perfume da rosa se espalhem pelos quatro ventos. Ainda que esta mesma rosa possa vir a ter espinhos, suas outras qualidades se sobrepõem ao seu caráter físico, pois se aliou à outros sentidos do corpo, como o olfato, visão e memória.
O ciúme corrosivo, por outro lado, é como um jardineiro irresponsável que não atenta o momento certo de colher os frutos de uma árvore. Ao seu redor, ervas daninhas pouco a pouco destroem o solo e roubam tudo aquilo que poderia ser utilizado para fortificar e nutrir a esbelta árvore. Trêmula, mórbida e pequena, logo ela irá murchar e desabar feito brasas numa fogueira qualquer, restando apenas os dons perdidos no futuro que não chegara a ocorrer.
O ciúme pecaminoso é aquele que excede todas as leis sagradas dos homens e caminha ao passo da monstruosidade nos seus atos, sendo justificados atos injustificáveis com poucas ou sequer nenhuma palavra. Sua origem é maléfica por si só, assim como sua existência, e é esse tipo de ciúme o mais perigoso, pois caminha atrelado ao ódio, remorso e todos os outros sentimentos degenerados das feras marginais que habitam nosso mundo terreno. 

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